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30 de dez. de 2010

Viram Jesus andando sobre as águas - Padre Queiroz

5 de Janeiro de 2011

Evangelho - Mc 6,45-52

Este Evangelho começa com as palavras: “Depois de saciar os cinco mil homens...” É uma prova da divindade de Jesus, mostrando o seu poder sobre a natureza. Em seguida o Evangelho apresenta outra grande prova: Jesus domina a natureza, andando sobre as águas do mar.

“Ao anoitecer, o barco estava no meio do mar e Jesus sozinho em terra. Ele viu os discípulos cansados de remar, porque o vento era contrário.” O Mar representa o mundo em que vivemos. Nós precisamos atravessar esse mar da vida e ir para a outra margem, isto é, para um mundo mais justo, mais fraterno e mais obediente a Deus.

Muitos querem ficar na terra firme. Isso é cômodo, mas não é bom porque assim o mundo novo não surge. É difícil atravessar o mar da vida, porque ficamos cansados e o vento é contrário. Mas compensa porque Deus caminha conosco, e ele domina todas as turbulências. Cristo é o Senhor da natureza e da História. Se o seguimos, nada de mal nos acontecerá..

“O coração deles estava endurecido.” Deus caminha ao nosso mas, devido à nossa dureza de coração, nós não o reconhecemos e até o confundimos com um fantasma. “Começaram a gritar”. Eram gritos de súplica. Quanta gente se afunda, sem se lembrar de rezar! Deus caminha sobre as águas, ao nosso lado, mas não entra no nosso barco se nós não pedirmos.

Jesus deixou todos os recursos à nossa disposição, a fim de nos lançarmos com coragem no mar da vida e atravessá-lo. Temos a santa Igreja, os sacramentos especialmente a Eucaristia, temos a Sagrada Escritura, o apoio da nossa Comunidade e muitos outros meios. Do outro lado está o mundo novo que Deus quer construir, cantando conosco. Não podemos ficar na praia, “vendo a banda passar”, pois o fermento foi feito para ser misturado na massa, o sal para ser misturado na comida, e a luz para ser colocada num lugar alto, a fim de iluminar a todos.

Humanamente é arriscado, mas a nossa segurança está em Deus que tudo pode. Na Bíblia, ter fé é sinônimo de ter coragem; e medo é sinônimo de falta de fé.

Aqueles cristãos e cristãs que dedicam umas horas da semana aos trabalhos da Comunidade, por exemplo, pastoral da criança, vicentinos, legião de Maria, apostolado da oração, pastoral da juventude, liturgia, canto..., estão se atirando no mar.

Também aqueles e aquelas que, impulsionados pela fé, se envolvem na política. Isso porque “a política é a ferramenta mais poderosa de transformação social” (Papa Paulo VI). Deus quer uma sociedade transformada, e nada melhor do que usarmos os recursos políticos. Este mar, da política, não é só revolto, mas muitas vezes sujo, tem mau cheiro, piranhas e tudo mais. Mas compensa enfrentá-lo.

Existem muitas formas de atuar. O que não podemos é ficar na praia “olhando navios”.

O que faz a diferença entre o cristão medroso e o cristão que se atira no mar é o tamanho da fé que ele ou ela tem. Quanto maior é a nossa fé, mais corajosos somos.

“Ao anoitecer... Jesus estava em terra e viu os discípulos cansados de remar, porque o vento era contrário. Então, pelas três da madrugada, Jesus foi até eles...” Dá impressão que Jesus demorou para socorrê-los. Isso retrata direitinho a nossa caminhada cristã. Precisamos perseverar, mesmo entre as maiores dificuldades, porque Deus, antes de nos socorrer, costuma testar a nossa fé. A noite representa aqueles momentos obscuros em nossa vida. É justamente aí que mostramos a nossa fé e perseverança. O socorro veio “pelas três da madrugada”. É a hora em que o horizonte começa a clarear.

“Jesus queria passar adiante.” E realmente passaria, sem socorrê-los, se eles não pedissem. Deus não entra na nossa vida, se não pedirmos. Deus está sempre ao nosso lado. Quantos se afogam num copo d’água e não pedem ajuda! Muitos, devido à falta de fé, até o confundem com um fantasma.

Após o milagre, “os discípulos ficaram ainda mais espantados”. É o impacto feliz e alegre do encontro do homem com Deus, do finito com o infinito, do contingente com o transcendente, do relativo com o absoluto.

Certa vez, uma senhora estava entrando na igreja e viu, na escada, uma menina sentadinha, com aparência de muito pobre. A mulher aproximou-se dela e perguntou: “Você precisa de alguma coisa, filha?” A garotinha respondeu, choramingando: “A minha mãe morreu, e eu gostaria de ter uma mãe!”

A senhora disfarçou a sua emoção e explicou que Deus nos deu uma mãe muito bonita e carinhosa, que é Nossa Senhora. Em seguida convidou-a a entrarem juntas na igreja. Levou-a até a imagem de Maria e as duas rezaram espontaneamente. Nesta hora, a criança deu um sorriso encantador.

Este foi apenas o primeiro contato entre as duas, porque na mesma tarde a senhora foi com ela até a sua casa.

A mãe abre para a criança o horizonte da vida e lhe dá segurança. A mãe sabe unir a ternura com a firmeza, o carinho com a correção. Sabe sorrir, mas sabe também ficar séria e ameaçar. Deus nos ama, por isso nos deu o amor de uma mãe.

Nós queremos pedir à Santa Mãe de Deus e nossa pelas crianças abandonadas, especialmente por aquelas que não têm mãe, para que preencha o vazio que ficou em seus coraçõezinhos. Com o apoio de Maria, todos nós temos coragem de atravessar o mar revolto da vida, cumprindo assim o mandamento de Jesus. A travessia do mar da vida é como uma grande pinguela, e Maria Santíssima é o corrimão. Segurando nela, com certeza não cairemos.

Viram Jesus andando sobre as águas.

Padre Queiroz

Dai-lhes vós mesmos de comer - Padre Queiroz

4 de Janeiro de 2011

Evangelho - Mc 6,34-44


Este Evangelho, da multiplicação dos pães, mostra que tanto os discípulos como Jesus sentiram compaixão do povo que estava com fome. Mas a maneira de resolver o problema foi diferente. Os discípulos queriam despedir logo o povo para que procurassem alimentos, porque não viam outra solução. Jesus quis que os próprios discípulos lhes dessem de comer, confiando na ajuda de Deus Pai.

A cena deixa claras duas maneiras de ver a religião. Os discípulos, ao pedirem a Jesus que despedisse o povo porque estavam com fome, mostraram que para eles essa parte de providenciar alimentos não faz parte da religião. Já para Jesus faz parte sim, e com Deus temos condições de resolver. Quantas Comunidades de hoje, através das instituições sociais, provam que com Deus realmente é possível. A caridade nos leva a amar as pessoas, mas amá-las inteiras, com corpo, alma e espírito. Por isso que muitas Comunidades se interessam pela político, pelo transporte, pela moradia, pela educação das crianças etc.

O sonho de um mundo melhor nos leva, não a deixar para os outros, mas a fazer a nossa parte, mesmo que tenhamos poucas condições. O pouco com Deus é muito e o muito sem Deus não é nada.

“Jesus mandou que todos se sentassem... formando grupos.” A organização gera a partilha e, quando partilhamos, Deus faz o milagre da multiplicação. Isso aconteceu ontem, acontece hoje e acontecerá sempre. Onde há amor, ninguém passa necessidade.

“Nosso Deus é o verdadeiro. Ele nos dá o pão da sua palavra e o pão que alimenta o corpo” (Dt 8,3). Veja que esse modo de ver a religião, como dedicação ao homem integral, não é coisa nova, sempre foi assim. Quando uma Comunidade se dedica ao homem integral, isso gera alegria e louvor a Deus, como aconteceu com os hebreus, quando veio o maná.

“Quantos pães tendes?... Jesus pegou os cinco pães e dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção...” Nem nós sozinhos, nem Deus sozinho, mas nós e Deus juntos. Nós fazemos a nossa parte, damos o pouco que temos, e Deus abençoa. Faça a sua parte que da minha ajudarei.

Se tivermos fé, espírito de partilha, união e organização, e não jogarmos fora as sobras, ninguém passará fome nem qualquer outra necessidade. As Comunidades cristãos são o meio que Jesus deixou para isto acontecer.

Alimento é coisa sagrada. Não podemos esbanjar, jogar fora. O que sobra para um falta para outro. Por isso, é preciso recolher com cuidado tudo o que sobra.

Assim como os cinco pães e dois peixes foram divididos e todos comeram, a nossa partilha também é multiplicada, em benefício de todos, inclusive de nós mesmos. E além temos a recompensa de Deus, tanto nesta vida como na outra. “Vinde, benditos de meu Pai, recebei em herança o Reino...” (Mt 25,34).

A multiplicação dos pães tem vários sentidos simbólicos. A grande multidão de cinco mil homens representa a humanidade com a sua fome de libertação messiânica. O milagre da multiplicação aponta para a Eucaristia, o Pão partilhado, saciando o novo Povo de Deus e prenunciando o banquete definitivo do Reino, já inaugurado.

A fome no mundo é patente. Três quartos da humanidade está subnutrida, e a maior parte é vítima da fome, doença, falta de moradia e de trabalho. As riquezas são concentradas pelos ricos, fazendo deles cada vez mais ricos, enquanto os pobres continuam cada vez mais pobres. Nós podemos, com o nosso esforço e união, mudar esse quadro.

Certa vez, na antiguidade, um navio estava atravessando o mar com centenas de pessoas. Aconteceu uma grande tempestade e o navio perdeu a direção. Acabaram chegando a uma ilha desconhecida e totalmente desabitada.

Logo que chegaram à ilha, três homens começaram a explorá-la. Viram que ela tinha duas partes bem distintas: o centro, com terra boa e coberta com matas e muita água doce, e a periferia constituída da pedreiras.

Mais que depressa, os três homens cercaram a parte boa da ilha e se declararam donos. Construíram ali três mansões. As outras pessoas tiveram de ficar na periferia. Logo começaram a passar fome. Então os três proprietários propuseram: quem trabalhar para eles ganhava comida. E assim, todos os outros se tornaram seus empregados.

Os três escolheram os homens fortes e corajosos e deram-lhes bastante comida e armas, declarando-os a polícia da ilha. Aos outros deram menos comida, para não terem força e se revoltarem.

Escolheram os mais inteligentes e fizeram deles professores. Mas deviam ensinar conforme a cartilha dos três. Escolheram também os mais piedosos e com eles fundaram uma religião, chamada “A religião do verdadeiro deus”. Ensinavam que a miséria e a fome são agradáveis a deus e que todos deviam obedecer aos três, cujos retratos as famílias deviam colocar nas paredes de suas casas. Outras imagens eram proibidas.

Entretanto, apareceu um profeta e começou a ensinar que todos somos iguais e que aquela religião era falsa. Os três chefes chamaram a sua polícia e mataram o profeta. Entretanto, as suas idéias ficaram em muitas cabeças e estas pessoas continuaram a doutrina do profeta, criando dentro da ilha um novo povo e um novo modo de viver, no qual as pessoas são iguais e os alimentos são distribuídos para todos.

Peçamos a Maria Santíssima que nos ajude a sermos profetas do verdadeiro Deus. Que sejamos cada vez mais unidos, solidários e organizados, a fim de que todos tenham vida e vida plena.

Dai-lhes vós mesmos de comer.

Padre Queiroz

O Reino dos Céus está próximo - Padre Queiroz

3 de Janeiro de 2011

Evangelho - Mt 4,12-17.23-25

Este Evangelho narra o início da vida pública de Jesus. O seu primeiro discurso começou com este apelo: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. Está próximo porque está presente na pessoa Jesus, que está presente. É um convite muito apropriado a nós, que acabamos de celebrar o Natal e a Epifania do Senhor.

A nossa conversão consiste em passar de uma vida cristã “mais ou menos”, ou medíocre, para uma fé generosa e dedicada. Entre seguir e não seguir a Jesus, existe um meio termo, e é dele que Jesus não gosta: “Por que não és nem frio nem quente, estou para te vomitar da minha boca” (Ap 3,15). “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor!’, entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).

O cristão medíocre gosta de ouvir a Palavra de Deus; o que ele não gosta é de praticá-la. “Quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, é como um homem sem juízo que construiu sua casa sobre a areia” (Mt 7,26).

Quem se converte e passa a viver uma vida cristã dedicada, presta um grande serviço à sociedade. Quem se eleva, eleva o mundo. Quem dá um passo na direção de Deus, faz o mundo todo melhorar. Quem, ao contrário, se afasta de Deus e do bom caminho, faz o mundo decair com ele. As nossas ações têm repercussão nas outras pessoas.

Conversão é mudança de vida. E o destino dessa mudança é o Reino de Deus, que o evangelista Mateus chama de Reino dos Céus porque escrevia em primeiro lugar para os judeus e estes, por respeito, evitavam pronunciar a palavra Deus.

Reino de Deus é a Vida Nova que Jesus nos veio trazer. Ela começa aqui na terra, mas terá sua plena realização no céu. Aqui na terra, só foi vivido integralmente por Jesus. Depois que Jesus foi para o céu, a Santa Igreja passou a ser a principal expressão do Reino de Deus. Ela é ao mesmo tempo amostra do Reino para o mundo e instrumento para que as pessoas entrem nele. A Igreja ainda não é o Reino de Deus perfeito, como Jesus, porque é santa e pecadora; mas caminha na frente do povo em relação à vivência do Reino de Deus. Ela anuncia e dá exemplo, em si mesma, do Reino de Deus.

Construir o Reino de Deus foi o grande sonho de Jesus. Ele deu a vida por esse ideal. “Jesus andava por toda a Galiléia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade”. Por que nós também não fazermos o mesmo? “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz”. A luz que brilhou no Natal e que se manifestou na Epifania, agora é levada por nós a todos os cantos escuros do mundo.

“Terra de Neftali... Galiléia dos pagãos. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz.” Esta viagem de Jesus por um território de pagãos foi um prenúncio da Igreja, presente em todos os países.

Trabalhar pelo Reino de Deus é trabalhar pela verdade e pela vida, pela santidade e pela graça, pela justiça, pelo amor e pela paz (Cf. Prefácio da Missa de Cristo Rei).

Faz parte da conversão ao Reino de Deus, testemunhá-lo: “Se alguém se envergonhar de mim, eu também me envergonharei dele, quando estiver diante do meu Pai que está nos céus” (Lc 9,26).

A durabilidade e qualidade de qualquer edifício depende de três coisas: o material utilizado, o conhecimento da pessoa que dirige a construção, e a sua fundação ou alicerce. Materiais inferiores, mesmo usados com habilidade, não podem suportar por muito tempo as intempéries. Nem os materiais superiores, se usados com negligência ou imperícia, poderão resistir. Uma combinação de materiais perfeitos, sabedoria do construtor e fundação sólida são necessários para que o edifício permaneça por longo tempo.

A construção do Reino de Deus, em nós e no mundo, também exige essas três coisas. O engenheiro arquiteto é Jesus. Precisamos buscar continuamente as suas instruções. A boa fundação ou alicerce é a prática das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, e a nossa obediência aos mandamentos, tudo construído sobre o terreno sólido da Palavra de Deus.

E o bom material são o anúncio do Evangelho e o testemunho de vida pessoal e da Comunidade cristã. Esse material já foi testado através dos séculos. Os materiais inferiores, que levam a construção a ruir, são o egoísmo, a luxúria, a fraude e desunião...

A santidade de Maria repercutiu e ainda repercute no mundo todo. Que ela nos ajude a nos convertermos cada vez mais e a sermos bons construtores do Reino de Deus.

O Reino dos Céus está próximo.

Padre Queiroz

Santa Maria, Mãe de Deus - Pe.Enrique Martínez

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

Neste dia, a liturgia coloca-nos diante de evocações diversas, ainda que todas importantes.

Celebra-se, em primeiro lugar, a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus: somos convidados a contemplar a figura de Maria, aquela mulher que, com o seu sim ao projeto de Deus, nos ofereceu Jesus, o nosso libertador.

Celebra-se também o primeiro dia do ano civil: é o início de uma caminhada percorrida de mãos dadas com esse Deus que nos ama, que em cada dia nos cumula da sua bênção e nos oferece a vida em plenitude.

As leituras que hoje nos são propostas exploram, portanto, estas diversas coordenadas. Elas evocam esta multiplicidade de temas e de celebrações.

Na primeira leitura, sublinha-se a dimensão da presença contínua de Deus na nossa caminhada e recorda-se que a sua bênção nos proporciona a vida em plenitude.

Na segunda leitura, a liturgia evoca, outra vez, o amor de Deus, que enviou o seu Filho ao encontro dos homens para os libertar da escravidão da Lei e para os tornar seus “filhos”. É nessa situação privilegiada de “filhos” livres e amados que podemos dirigir-nos a Deus e chamar-lhe “abbá” (“papá”).

O Evangelho mostra como a chegada do projeto libertador de Deus (que se tornou realidade plena no nosso mundo através de Jesus) provoca alegria e felicidade naqueles que não têm outra possibilidade de acesso à salvação: os pobres e os marginalizados. Convida-nos também a louvar a Deus pelo seu amor e a testemunhar o desígnio libertador de Deus no meio dos homens.

Maria, a mulher que proporcionou o nosso encontro com Jesus, é o modelo do crente que é sensível aos projetos de Deus, que sabe ler os seus sinais na história, que aceita acolher a proposta de Deus no coração e que colabora com Deus na concretização do projeto divino de salvação para o mundo.

Primeira Leitura - Livro dos Números (Nm 6,22-27)

22O Senhor falou a Moisés, dizendo: 23“Fala a Aarão e a seus filhos: Ao abençoar os filhos de Israel, dizei-lhes: 24‘O Senhor te abençoe e te guarde! 25O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! 26O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!’

27Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei”.
Palavra do Senhor

Salmo Responsorial - Salmo 66

Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção!

Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção,
e sua face resplandeça sobre nós!
Que na terra se conheça o seu caminho
e a sua salvação por entre os povos.

Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção!

Exulte de alegria a terra inteira,
pois julgais o universo com justiça;
os povos governais com retidão,
e guiais, em toda a terra, as nações.

Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção!

Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor,
que todas as nações vos glorifiquem!
Que o Senhor e nosso Deus nos abençoe,
e o respeitem os confins de toda a terra!

Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção!

Segunda Leitura - Carta de São Paulo apóstolo aos Gálatas (Gl 4,4-7)

Irmãos: 4Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, 5a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva. 6E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá-ó Pai!

7Assim, já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro: tudo isso por graça de Deus.
Palavra do Senhor

Proclamação do Evangelho, segundo Lucas (Lc 2,16-21)

Naquele tempo, 16os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura.

17Tendo-o visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino. 18E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam.

19Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração.

20Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito. 21Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido.
Palavra da Salvação.

Comentário - Um Ano Novo com Novo Coração

Feliz Ano Novo!

Quantas vezes o dissemos, e quantas nos faltam ainda dizer? Na Noite velha (última noite de 2010) levantamos copos para brindar, desejar e pedir que o ano de 2011seja um ano feliz; melhor do que 2010.

Ao olhar para o ano que se foi caímos na conta de que se prolongou a lista de guerras, represálias, vinganças, catástrofes, corrupções e fraudes, doenças, que temos causado danos ambientais a este planeta; e que cada qual tem sua própria coleção de sofrimentos e escuridões, fracassos, desenganos, projetos não realizados, coisas que quisemos mudar e seguiram teimosamente como sempre.

Pessimistas? Cansados? Derrotados? Ou mais esperançosos?

Algo bom teremos passado também. Em algo teremos crescido, alguma meta teremos atingido, alguma boa notícia nos alegou o coração, alguma amizade nova terá começado, alguma surpresa agradável teremos vivido... Se só nos fixamos nas más notícias... os sucessos, as bênçãos e as alegrias parecem pequenos e frágeis.

Oxalá tenhamos sido capazes de reconhecê-los e agradecê-los.

Desde sua pequenez, Maria soube alegrar-se, agradecer e louvar a Deus por todas as obras que Deus estava a fazer nela, por ela, com ela.

Esses bons e sinceros desejos que nos brotam ao ter diante a primeira folha do calendário, são somente sonhos, fantasias, frases feitas? Realmente neste novo ano vamos ser mais felizes, nós e os que caminham a nosso lado?

Talvez nossa saúde dê-nos algum sobressalto, ou talvez a de algum ente querido, que talvez seja pior. A fragilidade humana faz-nos temer algum desgosto ou decepção dos que mais nos querem. É quase seguro que eu mesmo falhe a alguém e não saiba estar à altura das circunstâncias, que sigam ativos alguns confrontos e conflitos pessoais, que repetir-se-ão as mesmas manias em minha forma de ser, que não poucos os problemas pendentes do ano que se foi ter-se-ão distribuído já pelos dias ainda sem estrear o novo ano.

Então, tem sentido esses brindes, esperanças, e bons desejos e propósitos?

Este ano mal estreado não será mais feliz porque os acontecimentos nos parecem favoráveis, mais porque olhamos e sentimos as coisas desde o coração de uma maneira nova e favorável. A felicidade não está fora, no que passa ou no que passamos... mais dentro, em mim mesmo. Não está na saúde, na sorte, no sucesso ou na riqueza, mais no modo em que nos situamos ante elas, no que fazemos com cada coisa que nos vem. A felicidade, a paz do coração, a ilusão, o equilíbrio, o estar bem não dependem fundamentalmente dos outros, do outro mais de mim mesmo, do que eu faço com tudo isso, de como tomo as coisas e as situações.

Nos diz o Evangelho: “Maria conservava tudo isto, e meditava sobre eles em seu coração”.

Recordava (passava pelo coração) e meditava tudo o que ia ocorrendo ante seus olhos, tratando de aprender, de compreender, de se deixar afetar pelo que ocorria aos demais. Era uma mulher de profundidade, de coração.

O coração não é um álbum de fotos, para repassar de quando em quando com nostalgia, ou talvez com raiva, mais um lugar para discernir, para separar e clarificar o que é manancial de vida e o que nos enche de morte, o mau e o bem; é o lugar para procurar e aprofundar o significado de todas as coisas: nem tudo vale, nem vale o mesmo para a vida do homem e a glória de Deus.

É o lugar para perguntamos o que fazer com o que nos dói, o que nos desconcerta, o que não responde ao que esperávamos, que decisões tomar para conservar a serenidade, a fidelidade aos nossos valores e compromissos, para mudar o que depende de nós, para não nos deixar apresar pelos acontecimentos, para afirmar o que é importante e irrenunciável, para não perder o rumo.

No coração tem posta sua residência o mesmo Deus que é amor; somos seu templo. Deixou escrito Santos Agostinho: Deus está comigo no mais profundo de meu próprio coração.

O rosto de Deus reconhece-se agora no ser humano, nascido de Mulher, para estar mais a nosso alcance, para que o compreendamos melhor, para que o sintamos próximo, e para que nos façamos próximos uns dos outros; esconde-se no mais profundo do homem para que ali o descubramos. Em mim mesmo, e “no outro”.

Deus não tem mais que nos olhar o coração para saber como estamos, se deixa olhar e descobrir com os olhos do coração, ainda que às vezes os sinais de sua presença sejam tão enormemente singelos e quotidianos: como um menino pobre, envolvido em fraldas, e com os braços de seus pais como único berço e abrigo.

Quando o olhamos desde o silêncio do coração, como nos ensinou sua Mãe, sentimos que nos deixa uma presença discreta que nos transforma e alegra, que nos anima, fortalece e pacifica.

Por isso quero vos convidar hoje para que este seja um “ano do coração”.

Como será diferente se começamos a nos comunicar “com o coração na mão”!

Se pomos todo o coração nas pequenas e grandes coisas que fazemos!

Se deixamos que os gestos daqueles que nos querem “chegue” ao nosso coração!

Se abrimos o coração a quem precisam entrar nele!

Se nos encontramos sozinhos conosco mesmos no fundo do coração!

Se guardamos as coisas no coração, e as meditamos na companhia de Deus!

Se deixamos que a miséria e a dor dos outros ressoe e encontre resposta em nosso interior!

É nisto que está o segredo da felicidade, da paz, do amor que enche e faz feliz!

Por isso mais que num “feliz ano” vos quero desejar um coração como o de Maria, a Mulher forte, a Mãe de Deus, para viver a cada momento, um coração em que caiba e esteja a gosto Deus, porque “se Deus está conosco, quem poderá conosco?”. Quando o coração humano se limpa de lixos, matos e pedregulhos sempre acaba aparecendo o Rosto de Deus sorrindo, iluminando, protegendo,criando comunhão, fazendo que frutifique a paz, a justiça, a retidão, a alegria...

Quando o coração humano está atento e “guarda as coisas nele”, se faz dócil aos gestos de Deus: tenho aqui a escrava do Senhor. E essa docilidade converta-se em fecundidade, e bênção: bendito o fruto de teu ventre.

Quando o coração humano se deixa iluminar pelo Espírito, descobrimos que não estamos sozinhos e podemos dizer: Abbá!, Mãe! Irmãos!

Pe. Enrique Martínez, cmf