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13 de jun de 2011

-Bem-aventurados são vossos olhos - Frei Betto

Ano A - Dia: 26/07/2011

Mt 13,16-17

          Jesus fala aos seus amigos que eles são felizes por estar diante do Filho de Deus, por estar vendo o próprio Deus diante deles, ou seja, a sua pessoa.

            E nós? Como olhamos as pessoas? Como olhamos o mundo? Como nos olhamos? Será que não somos uns exibidos querendo nos mostrar aos olhos dos outros como os melhores? Os mais perfeitos? Os mais santos?  Sal.

PATOLOGIA  DO  EXIBICIONISMO

Há adultos que jamais superam a fase de exibicionismo próprio da infância e querem sempre fazer do olhar alheio um espelho de sua auto-imagem.

Todos sabem que o cúmulo do exibicionismo é um caso de polícia: mostrar, de modo agressivo, os órgãos genitais em público. Trata-se de uma maneira de dizer: "Eu existo e possuo o objeto permanente do desejo alheio". A psicologia experimental considera, segundo os estudos de Dollard, Miller e Sears, que toda forma de agressão pressupõe uma frustração. Assim, a tendência ao exibicionismo é um sintoma de imaturidade.

O exibicionista não se suporta, julga-se inferiorizado e, por isso, necessita transformar o olhar alheio em lente de aumento capaz de ampliar sua auto-imagem. Ele só se vê no olhar do outro, pois a seus próprios olhos sente-se emocionalmente castrado. Daí seu medo da solidão, não apenas da solidão física, mas sobretudo da solidão simbólica, de quem se sente qual uma lâmpada apagada. O exibicionista precisa sentir-se sempre aceso, com sua luz projetada sobre os olhos alheios.

Na formação da personalidade, a fase do exibicionismo sinaliza o corte dos cordões umbilicais, quando a criança toma consciência da alteridade das relações humanas. Ela quer se ver como ser independente, dotado de vontade própria e, ao mesmo tempo, centralizador das atenções. Ao perceber que nem todos os olhares imitam o olho materno centrado sobre ela, a criança exige, pelo exibicionismo, que sua presença seja notada. Como alerta Piaget, ela se torna objeto de sua própria atenção e reage como se não suportasse a idéia de que o mundo olha em outras direções. Poder-se-ia dizer que se trata de um momento de mudança copernicana na formação da personalidade, quando a auto-imagem ptolemaica - de quem se considera o centro do Universo - rompe-se diante da surpreendente descoberta de que há incontáveis centros olhando em diferentes direções. Porém, nem todos conseguem ingressar nessa fase galileana. Alguns tornam-se adultos sem condições de ultrapassar o universo emocional ptolemaico.

Na criança, o exibicionismo manifesta-se pela desobediência, teimosia, molecagens, prazer em desafiar normas e costumes, exposição ao perigo físico. Em seu grito de independência e vida, ela suplica, inconscientemente, por atenções que compensem a perda inconsolável do cuidado materno, até há pouco permanente e protetor. Procura arrancar aplausos ou mesmo a indignação dos olhares que a cercam, transformando o meio social - essa piscina na qual foi atirada a contragosto - em sua platéia. Na escola, desafia professores e tudo faz para conquistar a admiração de seus colegas. Na rua, mete-se em arruaças e brigas e enfrenta desafios - rouba frutas no quintal do vizinho, beija a força a amiga, fuma, adota modas extravagantes - como que reivindicando para si o status de herói que fora até então monopolizado pela figura materna ou paterna.

Extensões e frustrações

Na idade adulta, o exibicionismo se caracteriza pela busca incansável de bens compensatórios à castração emocional. A mansão, as jóias, o carro de luxo, o status, as funções profissionais ou políticas - são todos adereços para tentar encobrir uma personalidade nanica que não conseguiu afirmar-se diante de si mesma e, portanto, sempre se pauta pela opinião alheia. Na esfera afetiva, o exibicionista dá mais valor aos predicados físicos do que ao compromisso objetivo e à intensidade do encontro subjetivo com o outro. Seu parceiro é alguém a ser exposto, visando a suscitar inveja alheia, como a criança que vai à escola com o relógio novo - não para saber as horas, mas para que todos sejam atraídos por seu objeto de ostentação.

No exercício de um cargo de direção, o exibicionista sente compulsiva necessidade de sempre comprovar seu poder, destacando-se pela arbitrariedade e transformando seus subalternos em meros instrumentos de sua soberba. Ele compraz-se em se exibir mesmo quando faz algum gesto magnânimo.

O exibicionista não se confunde com o vaidoso, aquele que se reveste de dotes imaginários e intimamente se julga o centro das atenções. Nem com o orgulhoso, que se considera intelectual ou socialmente superior, ainda quando assume a postura de parecer bom ouvinte. O exibicionista é, por desvio de caráter, um extrovertido, no sentido etimológico e etiológico do termo - inversão extrojetada. Ele exporta para os outros sua própria imagem, como se todos se sentissem mais agasalhados ao revestir-se dela.

Carente de si mesmo, ele quer sempre surpreender, ocupar todos os espaços, contemplar-se a si mesmo no altar erigido por seus gestos espetaculares. Não quer ser apenas contemplado e adorado pelos outros. Ele insiste em ser simultaneamente objeto venerado pelo olhar alheio e por seu próprio olhar. Nesse sentido, no centro de seus sonhos não estão os ideais que professa ou o amor que jura, mas a sua própria figura. Todas as suas motivações "altruísticas" têm início e fim em seu ego.

Auto-referente, o exibicionista é um eterno insatisfeito consigo mesmo e, portanto, perfeccionista. Como se um membro essencial de seu corpo lhe faltasse e fosse preciso recorrer a contínuas artimanhas para encobrir e compensar o aleijão. Por isso, ele está sempre procurando completar-se, no sentido mcluhaniano do termo, ou seja, dotando-se de equipamentos - velozes, potentes, avançados - que dilatem a extensão de seu corpo. Desse modo, o exibicionista compraz-se em suscitar a inveja de todos que o cercam e jamais suporta conviver com quem se mostra mais capaz do que ele. Nem admite a indiferença. Em seu universo, há lugar para um único sol, cercado de satélites sem luz própria.

O ostracismo é a morte do exibicionista. Tudo, menos o anonimato. Seu inferno é a clausura, a carência de bens ostentatórios, a redução do status ou a perda de poder. Ele não age regido por princípios. Sua palavra vale até esbarrar no pedestal que o sustenta. Entre a auto-imagem e a palavra, ele salva a primeira, pois sua relação com o mundo é preponderantemente estética, e não ética, como um ator que só acredita na força do personagem se a cenografia causar impacto.

O exibicionista jamais demonstra sinais de fraqueza, condescendência e tolerância. Revestido de suposta onipotência, ele se desculpabiliza de toda ação inescrupulosa, como se lhe coubesse a missão histórica de inovar os padrões morais. Por isso, não se envergonha de seus erros e nem se condói com o sofrimento alheio, pois está convencido de que os outros não mereceram a sorte de possuir, como ele, a estrela da exuberância ilimitada.

No convívio privado, o exibicionista não dialoga, impõe-se. Quando escuta é com a cabeça centrada em si mesmo e não nos argumentos do interlocutor. Quando fala, acredita mais na força simbólica do som de sua voz do que na lógica de seu raciocínio.

O que o exibicionista mais teme é enfrentar as situações-limite da vida. Para ele, doença, fracasso, falência e morte são insuportáveis e, com medo do sofrimento decorrente da decisão de assumi-las, ele se omite, como se o lado trágico da vida não lhe dissesse respeito. Ele foge psicologicamente quando surge, em seu caminho, alguma forma de limitação ou carência. É o que a psicanálise freudiana qualifica de negação. Banca a avestruz, enfiando a cabeça em seu próprio ego, como se a vida fosse sempre festa, jamais féretro. Mas como na vida a culpa que se contrai por omissão é incomparavelmente maior do que aquela advinda da transgressão, o exibicionista lida com seus eventuais sentimentos de culpa acionando o mecanismo de projeção de sua auto-imagem.

Diante da miséria, ostenta riqueza; frente à corrupção, arvora-se em paradigma moral; entre tantos famélicos, esbanja saúde; numa situação de fraqueza, agride como uma fera. Ele se oferece como referência catártica a todos que vivem na carência. Nele, tudo é completo e os carentes o miram como a criança ao Super-Homem que encarna suas fantasias onipotentes.

Karen Horney mostrou que tais projeções alucinatórias, nas quais se perdem os limites entre sonho e realidade, são típicas de situações sociais conflitivas nas quais o indivíduo só reencontra seu equilíbrio psíquico alienando-se. Por isso, o sistema capitalista manipula essa alienação, colocando as pessoas diante de condições de perpétua frustração - riquezas inacessíveis, etc. - e, ao mesmo tempo, oferecendo-lhes satisfações fictícias, como na publicidade e nas telenovelas.

O exibicionista é, por caráter, detalhista. Do fio de cabelo fora do lugar ao quadro torto na parede, tudo o irrita quando não corresponde ao seu gosto, pois ele quer se ver na ordem circundante. O mundo é extensão de sua figura. E o caos, o seu inferno, porque desarruma o picadeiro no qual ele ocupa o centro.

Em suma, o exibicionista não se admite como um-entre-outros. Todos, queiram ou não, estão obrigados a contemplar a sua venerável figura - fonte de vida e de prazer... dele, corrente aprisionadora para os que se deixam subjugar, espada mortal para aqueles que ousam olhar em outras direções.

frei Betto

 

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